"EU SEREI O REI"

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LEITURA DO TEXTO

1Reis 1.5–10 “Então Adonias, filho de Hagite, se exaltou e disse: — Eu serei o rei. Providenciou carros de guerra, cavaleiros e cinquenta homens que corressem na sua frente. Seu pai jamais o tinha contrariado, dizendo: “Por que você fez isso ou aquilo?” Adonias tinha boa aparência e era mais jovem do que Absalão. Ele tinha feito um acordo com Joabe, filho de Zeruia, e com Abiatar, o sacerdote, que o seguiam e apoiavam. Porém Zadoque, o sacerdote, Benaia, filho de Joiada, Natã, o profeta, Simei, Reí e os valentes de Davi não apoiavam Adonias. Certo dia Adonias sacrificou ovelhas, bois e bezerros gordos junto à pedra de Zoelete, que está perto de En-Rogel. Convidou todos os seus irmãos, os filhos do rei, e todos os homens de Judá que estavam a serviço do rei, porém não convidou Natã, o profeta, nem Benaia, nem os valentes, nem Salomão, seu irmão.”

INTRODUÇÃO (ler tudo!)

“Todo ser humano tem resistido à autoridade desde o jardim do Éden, porém nós, no Ocidente Iluminista (Europa e Américas do Norte, Central e do Sul influenciados pela cultura do iluminismo que é a cultura mais voltada para a razão e a ciência do que para a religião), [nós] demos a essa resistência [à autoridade] uma respeitabilidade moral e filosófica. Meus professores da escola pública me ensinarram a não confiar na autoridade da igreja, porque a igreja perseguiu Galileu; nem na autoridade da Bíblia, porque a ciência nos ensina a deixar a supertição para trás; nem na autoridade da ciência, porque uma geração de cientistas refutará a anterior; nem na autoridade do rei, porque não existe tal coisa como o direito divino dos reis; nem na autoridade da maioria democrática, porque as maiorias também podem ser tirânicas; nem na autoridade dos tribunais, porque eles também estão fazendo política; nem na autoridade dos filósofos, porque eles fazem jogos de linguagem; nem na autoridade da linguagem, porque alguns filósofos franceses observaram que as pessoas usam termos cotidianos como “hétero” e “gay” como armas para normalizar nossas preferências e marginalizar pessoas que são diferentes; nem na autoridade do mercado, porque o capitalismo é o gêmeo siamês do racismo; nem na autoridade policial, porque a polícia também é racista; nem na autoridade da mídia, porque ela é tendenciosa; nem na autoridade dos nossos cromossomos XX ou XY, porque eles não nos dizem como devemos definir nosso gênero; nem, claro, na autoridade da mamãe e do papai, porque, vejam bem, a vida é mais divertida se você puder sair escondido para ir a uma festa. Você nunca assistiu a Curtindo a vida adoidado?
No fim das contas, já não resta nenhuma autoridade a derrubar — exceto a autoridade do “Eu”. É isso que os escritores querem dizer quando descrevem nossos dias como “individualistas”. Individualismo não significa que eu gosto de ficar sozinho ou que não tenho amigos, mas que ninguém pode me dizer o que devo fazer ou quem devo ser. Ninguém tem autoridade sobre mim.”
O texto que acabo de ler está na página 21 do livro “Autoridade redimida” do pastor Jonathan Leeman, do ministério 9 Marcas. Está aí um livro que todos nós não podemos sair desta vida para a próxima sem antes ter lido.
E quando o ego quer governar a própria vida?
O sermão desta noite vai tratar do início do relato bíblico de uma parte da história de Adonias, o quarto filho do rei Davi. A Bíblia não fala de sua infância, mas dá um sinal. Adonias aqui é um jovem; logo, ele passou pela infância e adolescência, mas não atingiu ainda a maturidade. Seres humanos que ainda não chegaram à vida adulta passsaram boa parte de suas vidas debaixo da tutela dos pais — o que significa que são uma responsabilidade maior deles. Agora, o que veremos é que até os filhos que tiveram alguns problemas em sua criação e na formação de sua identidade e caráter alcançam um estágio na vida que não poderão simplesmente terceirizar a responsabilidade por suas ações.
Eu quero iniciar dando destaque a algumas frases que acabamos de ler no texto bíblico.
“Então Adonias, filho de Hagite, se exaltou e disse: — Eu serei o rei.”
“Seu pai jamais o tinha contrariado, dizendo: “Por que você fez isso ou aquilo?”
“Certo dia Adonias sacrificou ovelhas, bois e bezerros gordos… convidou todos os seus irmãos, os filhos do rei… porém não convidou Natã, o profeta, nem Benaia, nem os valentes, nem Salomão, seu irmão.”
O que podemos perceber nessa narrativa em torno da figura de Adonias, filho do rei Davi?
1) autoexaltação, 2) falta de limites na sua criação e 3) espírito conspirador.
A gente não vive tão longe de pessoas assim. Muitas vezes essas pessoas fazem as necessidades no vaso sanitário e tomam banho no chuveiro com a gente porque simplesmente não são pessoas de fora, mas sim de dentro. Muitas vezes o mal que enxergamos nos outros habita em nós. A coisa mais natural neste mundo é a existência de seres humanos que não sabem respeitar nada nem ninguém. A coisa mais comum nessa vida é existir alguém que só está disposto a servir e fazer as vontades de um ser: ele mesmo.
Nesta sequência do fim da história do rei Davi e o princípio da história da sucessão do seu trono, o que o autor reserva para nós é uma evidência de que, quando há um vácuo de poder e negligência na formação espiritual e de caráter dos filhos, a consequência imediata num reino é uma crise sem precedentes que vai impactar tanto na história da família real quanto na história do povo de Deus.
Se a gente levar em consideração que hoje o povo de Deus é a igreja e que todos nós de alguma maneira possuímos algum tipo de autoridade (nem que seja sobre a própria consciência), o que fazemos ou deixamos de fazer no exercício dessas autoridades vai impactar nas próximas gerações, a gente querendo ou não.
Não tem como falar de Adonias sem falar de Davi e Hagite. Não tem como olhar a história de um filho e não considerar a história de seus pais. As histórias se entrelaçam, e o que somos inevitavelmente trás a carga de boa ou má influência dos nossos pais.
Agora, o foco maior é Adonias e veremos nessa noite que a história dos reis também nos leva a fazermos muitas reflexões profundas sobre o pecado da idolatria. O quão fácil é pra gente colocar qualquer outra coisa ou pessoa no lugar de Deus? E a pior idolatria é a que conhecemos hoje como egolatria. O pior tipo de adoração a ídolos é a adoração ao ídolo chamado “si mesmo”. Adonias é o retrato de um ser ególatra que vai fazer qualquer coisa para servir e satisfazer a si mesmo — e o caminho de gente assim tem um destino muito bem traçado: autodestruição.

EXPOSIÇÃO DO TEXTO

1Reis 1.5–8 “Então Adonias, filho de Hagite, se exaltou e disse: — Eu serei o rei. Providenciou carros de guerra, cavaleiros e cinquenta homens que corressem na sua frente. Seu pai jamais o tinha contrariado, dizendo: “Por que você fez isso ou aquilo?” Adonias tinha boa aparência e era mais jovem do que Absalão. Ele tinha feito um acordo com Joabe, filho de Zeruia, e com Abiatar, o sacerdote, que o seguiam e apoiavam. Porém Zadoque, o sacerdote, Benaia, filho de Joiada, Natã, o profeta, Simei, Reí e os valentes de Davi não apoiavam Adonias.”
Vamos a algumas lições que extraio desses versículos.
1- Pais ausentes ou omissos formam filhos sem identidade, sem caráter e sem futuro.
Se você investigar a história de Hagite, mãe de Adonias, verá que ela é uma das esposas de Davi por inferência, porque não há no relato bíblico nenhum registro de como essa história se deu. Ela aparece em 2Samuel 3 na lista dos filhos de Davi nascidos em Hebrom e simplesmente é citada como mãe de Adonias, sem mais explicações. O texto diz:
2 Samuel 3:1–4 NAA
Durou muito tempo a guerra entre a casa de Saul e a casa de Davi. Davi se fortalecia cada vez mais, enquanto a casa de Saul se enfraquecia. Em Hebrom, nasceram filhos a Davi. O primogênito foi Amnom, de Ainoã, a jezreelita. O segundo foi Quileabe, de Abigail, viúva de Nabal, o carmelita. O terceiro foi Absalão, filho de Maaca, filha de Talmai, rei de Gesur. O quarto foi Adonias, filho de Hagite. O quinto foi Sefatias, filho de Abital.
Atenção ao detalhe do texto!
a) Ainoã, mãe de Amnom, a jezreelita;
b) Abigail, mãe de Quileabe, viúva de Nabal e sua história é contada em 1Samuel 25;
c) Maaca, mãe de Absalão, é filha de Talmai, rei de Gesur;
d) Hagite, mãe de Adonias e só.
Podemos até mencionar o fato de que Abital e Eglá, ambas mulheres que geram respectivamente Sefatias e Itreão, os filhos de Davi nesse mesmo texto de 2Samuel 3 , não são mulheress que possuem suas histórias contadas na Bíblia. Isso é verdade. Mas também não temos na Bíblia o relato das histórias desses filhos de Davi. Agora, no entanto, estamos diante da história do quarto filho do rei e quais são as evidências que temos? Sua mãe é retratada apenas como uma progenitora, nada mais. Nenhum diálogo, nenhum ensinamento, nenhum afeto, nenhuma correção, nenhum limite dado. Não foi só o rei Davi que negligenciou na criação de Adonias, mas também Hagite e isso se dá pela falta de registro de uma atuação dela no aconselhamento e na correção do seu filho — diferente de Bate Seba com Salomão, mas isso nós veremos apenas no próximo sermão da série.
Existem detalhes que só podemos perceber no texto bíblico quando procuramos fazer uma leitura atenta.
Davi e Hagite foram o combo perfeito da formação de um Adonias arrogante, rebelde e incapaz de ser original nem mesmo na tentativa de golpe de estado. E digo golpe de estado porque o processo natural para um novo rei ser entronado é por meio de processos políticos que envolvem a morte do rei que ainda está no poder e uma sucessão saudável do poder é feita de forma transparente e pública, onde o próprio rei que ainda se encontra no poder já delega a sucessão para quem vai assumir o seu lugar. Mas o que vimos? Um jovem seguindo a prática de seu irmão mais velho que fracassou e foi morto. O seu nome é Absalão.
Veja as semelhanças. Vamos colocar dois textos lado a lado.
1Reis 1.5 “Então Adonias, filho de Hagite, se exaltou e disse: — Eu serei o rei. Providenciou carros de guerra, cavaleiros e cinquenta homens que corressem na sua frente.”
2Samuel 15.1 “Depois disso, Absalão arranjou uma carruagem, cavalos e cinquenta homens que corressem na sua frente.”
Modus operandi conspiratório: demonstrar força militar e procurar ocupar o trono sem um processo político de sucessão legítimo.
Adonias é fruto de uma formação humana deficitária.
1Reis 1.6 “Seu pai jamais o tinha contrariado, dizendo: “Por que você fez isso ou aquilo?” Adonias tinha boa aparência e era mais jovem do que Absalão.”
Seu pai jamais o contrariou; sua mãe possivelmente não o confrontou nem o direcionou o caminho como veremos com Bate Seba e Salomão; Adonias então é um filho órfão de pais vivos.
Assim são os pais ausentes ou omissos. No caso de Davi, ele estava muito ocupado com o trabalho de Rei. No caso de Hagite, não sabemos, mas ela como uma das esposas do rei não tinha necessidades materiais, talvez emocionais, mas isso não justifica sua falha de presença na vida de Adonias. Quantos de nós consideramos a missão da paternidade e da maternidade algo menos essencial que a necessidade de ganhar dinheiro, pagar as contas e manter o padrão de vida? Mas nossos filhos precisam muito mais do que o dinheiro pode dar. Nossos filhos precisam de ensino, proteção, afeto, cuidado, serviço, correção, tempo de conversa, presença, oração e demonstração da prática do evangelho. Nossos filhos precisam de algo mais que presentes: precisam e anseiam por PRESENÇA.
Adonias teve como referência Absalão e o seu fim foi idêntico. Previsível. Quem toma o caminho de um mau exemplo, tende a terminar como o exemplo mau que procurou seguir e imitar.
A referência de homem para Adonias deveria ser o seu pai Davi. Pais omissos formam filhos sem identidade, sem caráter e sem futuro.
2- Chega um tempo em que a criança ou adolescente adentra a vida adulta e não dá mais para terceirizar a culpa pelas próprias escolhas erradas.
Adonias cresceu, se tornou um jovem adulto e agora é responsabilidade dele trilhar o próprio caminho. Muitos filhos de pais ausentes superam essa falta e procuram outras paternidades ou maternidades que lhe ajudarão a vencer. Muitas vezes eles vencem mesmo sem ter essas paternidades e maternidades alternativas. Ou seja, a falha dos pais biológicos justifica um filho até certo ponto. Na vida adulta, a responsabilidade do homem não é mais dos seus pais. Eles podem ter errado ou acertado, mas agora o que importa é o que esse homem fará com a própria vida (obviamente isso se aplica também às mulhreres). Adonias pode até reclamar dos erros de Davi e Hagite, mas tão somente até a página 2. Se ele prefere seguir o caminho de Absalão e procura as alianças erradas, entao ele e somente ele é quem vai prestar contas disso.
E quem são os homens com quem Adonias fará aliança?
Joabe: O General em Declínio
Joabe era o comandante do exército de Israel e durante muitos anos atuou como braço direito de Davi, tendo sido o general que ajudara o rei a conquistar Jerusalém e que suprimira todas as rebeliões contra seu trono1. No entanto, Joabe matara o filho de Davi, Absalão, o que fez com que perdesse o favor real e diminuísse sua influência política1. Sua aliança com Adonias não era pensando no benefício do filho do rei: talvez seu apoio a Adonias lhe permitisse recuperar sua posição de poder no reino1. Joab e Abiathar não iam se sair bem na administração de Salomão, então lançaram sua sorte com Adonias na esperança de ajudar seus próprios interesses2.
Abiatar: O Sacerdote Ambicioso
Abiatar era um dos parceiros do velho rei, um homem que havia acompanhado Davi quase desde o início1. Contudo, Abiatar não era o sumo sacerdote, mas talvez o quisesse ser. Em todo caso, decidiu que acompanharia Adonias em sua ascensão ao poder1.
O Padrão de Traição
Ambos compartilhavam uma característica fundamental: priorizavam ganhos pessoais sobre lealdade à vontade de Deus. Ambos tinham pessoas ao seu redor que lhes diziam o que queriam ouvir, apoiando suas ambições e elogiando suas conquistas sem criticar suas falhas ou corrigir seus pecados1. Suas consequências foram severas: Salomão depôs Abiatar do sacerdócio porque apoiou a busca de Adonias pela realeza, e assassinou Joabe, antigo comandante do exército de Davi, porque apoiou a tentativa de Adonias de tomar o trono3.
1Philip Graham Ryken, Estudos Bíblicos Expositivos em 1 Reis, trad. Markus Hediger (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2015), 18–19.
2John G. Butler, Analytical Bible Expositor: I Kings to II Chronicles (Clinton, IA: LBC Publications, 2012), 13.
3George W. Knight, Pocket bible handbook (Uhrichsville, OH: Value Books, 2015), 82.
Adonias, um jovem sedento pelo poder, fez aliança com iguais sedentos pelo poder. Somos o resultado dos nossos relacionamentos, e isso explica muito a atual condição espiritual e de vida de muita gente. A gente está onde a gente merece estar. Geralmente isso faz muito sentido.
1Reis 1.9–10 “Certo dia Adonias sacrificou ovelhas, bois e bezerros gordos junto à pedra de Zoelete, que está perto de En-Rogel. Convidou todos os seus irmãos, os filhos do rei, e todos os homens de Judá que estavam a serviço do rei, porém não convidou Natã, o profeta, nem Benaia, nem os valentes, nem Salomão, seu irmão.”
Veja que aparentemente Adonias não tinha como [mau] exemplo apenas Absalão. Ele também repetiu o padrão de outra personagem bíblica: o rei Saul. Vejamos na Escritura:
1Samuel 13.8–14 “Saul esperou sete dias, segundo o prazo determinado por Samuel. Mas como Samuel não vinha a Gilgal, o povo foi se espalhando dali. Então Saul disse: — Tragam-me aqui o holocausto e as ofertas pacíficas. E ofereceu o holocausto. Mal tinha ele acabado de oferecer o holocausto, eis que chegou Samuel. Saul saiu ao encontro dele, para o saudar. Samuel perguntou: — O que foi que você fez? Saul respondeu: — Vendo que o povo ia se espalhando daqui, e que você não vinha no prazo combinado, e que os filisteus já tinham se ajuntado em Micmás, eu disse comigo: “Agora os filisteus virão contra mim em Gilgal, e ainda não busquei a face do Senhor.” Assim, forçado pelas circunstâncias, ofereci holocaustos. Então Samuel disse a Saul: — Você cometeu uma loucura, não guardando o mandamento que o Senhor, seu Deus, lhe ordenou. Pois o Senhor teria confirmado para sempre o seu reinado sobre Israel. Mas agora o seu reinado não subsistirá. O Senhor buscou para si um homem segundo o seu coração e já lhe ordenou que seja príncipe sobre o seu povo, porque você não guardou o que o Senhor lhe ordenou.”
Um homem sem comunhão com Deus é como um trem descarrilhado e sem freio — torna-se uma máquina de ações diabólicas.
O “diabo” é o nosso adversário que quer ardentemente que o sirvamos da seguinte maneira: servindo a nós mesmos. Uma boa liderança não existe para o poder, mas para o serviço. Essas jogadas políticas só poderiam levar a um ponto: à queda do homem mau.
Lembremos que Deus é o rei supremo de Israel. Quem governa de fato o povo de Deus é o Senhor, não Davi ou um de seus filhos. E entender que o poder é uma realidade meramente humana, inerente a cargos políticos e ao próprio nome que possui é procurar entrar na rota de colisão com o Autor da história e Dono todas as coisas. Deus permite o mal, mas o mal age na História e no mundo com um prazo de validade.
Adonias fez uma “festa da vitória” mas não convidou o profeta Natã que ainda por cima era amigo pessoal do rei Davi, não convidou Benaia que era extremamente leal ao rei Davi, não convidou Zadoque, o sacerdote oficial do reino de Davi, não convidou Simei nem Reí, nem os valentes de Davi, que eram reconhecidos não só pelo rei Davi, mas pelo profeta Natã e pelo sacerdote Zadoque — homens sem muito poder político, mas poderosos na confiança que tinham por parte do rei Davi e Deus era com todos eles por estarem do lado daqueles que tinham aliança com o homem segundo o coração de Deus.
A postura de Adonias de querer a primazia e promover uma cultura de divisão e controle sobre outras pessoas me faz lembrar de uma personagem do Novo Testamento: Diótrefes. Nós lemos sobre o relato do apóstolo João sobre sua atitude na igreja primitiva. Vamos ler novamente:
3 John 9–12 NAA
Escrevi algumas palavras à igreja, mas Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida. Por isso, quando eu for aí, farei com que se lembre das obras que ele pratica, proferindo contra nós palavras caluniosas. E, não satisfeito com isso, ele não recebe os irmãos, impede os que querem recebê-los e os expulsa da igreja. Amado, não imite o que é mau, e sim o que é bom. Quem pratica o bem procede de Deus; quem pratica o mal jamais viu a Deus. Quanto a Demétrio, todos dão bom testemunho dele, até a própria verdade. E nós também damos testemunho, e você sabe que o nosso testemunho é verdadeiro.
Diótrefes é o arquétipo (o modelo) do mau líder: 1) gosta de exercer a primazia, 2) não acolhe bem as pessoas, 3) impõe seu poder sobre os outros sem manifestar graça nem misericórdia.
Adonias é esse líder que divide o povo de Deus, aquela pessoa que tem influência e a utiliza para criar facções e colocar uns contra os outros. Quantas pessoas que foram envenedadas na alma porque um Adonias ou um Diótrefes da vida resolveu assassinar Salomão, João ou Demétrio nestes corações!
Quando Adonias fala de Salomão para mim, eu passo a conhecer muito mais Adonias do que Salomão.
Agora, e sobre esses sacrifícios que Adonias fez após ter se intitulado rei?
Afinal de contas, foi tão grave assim essa atitude de Adonias, de sacrificar animais? Sim!
A estrutura teológica era precisa: o rei governava o povo, mas o sacerdote mediava entre Deus e a nação através dos sacrifícios. Quando um rei tentava exercer ambas as funções, estava reivindicando uma autoridade que pertencia exclusivamente a Deus. A consequência foi que, embora o Senhor teria confirmado o reinado de Saul para sempre, seu reino não subsistiria, pois Deus buscou um homem segundo seu coração para ser príncipe em seu lugar (1Sm 13.8–14).
Essa distinção entre poder régio e autoridade sacerdotal não era meramente administrativa—era teológica. Permitir que reis sacrificassem teria significado que o acesso a Deus dependia da vontade política do monarca, não da vontade divina. A separação de funções protegia a integridade da adoração e garantia que nenhum ser humano, por mais poderoso que fosse, pudesse monopolizar o relacionamento entre Deus e seu povo.
Outros reis que tentaram ultrapassar essa linha—como Uzias em 2Crônicas 26—também enfrentaram julgamento divino, confirmando que essa não era uma regra flexível, mas um princípio imutável da teocracia israelita.
E você percebeu no texto que Adonias também não convidou para o banquete um irmão em específico: Salomão?
Existem textos que comprovam que Salomão foi o escolhido por Deus para reinar sobre Israel, e não Adonias.
A promessa fundamental em 2Samuel 7.12-13 estabelece que um descendente de Davi edificaria um templo e teria seu reino estabelecido para sempre. Essa profecia é genérica quanto à identidade específica do filho, mas aponta para uma linhagem contínua de sucessores legítimos.
A promessa mais explícita sobre Salomão aparece em 2Samuel 12.25 (“Davi o entregou nas mãos do profeta Natã, e este lhe chamou Jedidias, por causa do Senhor.”) , onde Natã o profeta comunica a Davi que Deus amava Salomão e o chamava de “Jedidias” (amado do Senhor)—um nome dado por Deus que indicava aprovação divina especial. Esse texto marca Salomão como escolhido antes mesmo de sua coroação.
Em 1Crônicas 22.9-10, Davi declara explicitamente que seu filho Salomão construiria a casa do Senhor, afirmando que Deus o havia escolhido. Aqui, a promessa torna-se pessoal e nomeada: não apenas um descendente genérico, mas Salomão especificamente.
1 Chronicles 22:9–10 NAA
Eis que lhe nascerá um filho, que será homem pacífico, porque lhe darei descanso de todos os seus inimigos ao redor. Portanto, o nome dele será Salomão, e nos seus dias darei paz e tranquilidade a Israel. Este edificará um templo ao meu nome. Ele me será por filho, e eu lhe serei por pai; e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino sobre Israel.”
1Reis 1.30 registra Davi jurando a Bate-Seba: “Certamente teu filho Salomão reinará depois de mim, e ele se assentará no meu trono em meu lugar”—uma confirmação pública e solene da vontade divina.
Já ensinei à igreja que os nomes hebraicos carregam um significado e muitas vezes apontam para o caminho que tal personagem vai trilhar, ou ironicamente, representam o caminho oposto.
Davi = amado
Salomão = paz
Adonias = meu senhor é Iavé
Veja que interessante! Natã profetiza em 2Samuel 12.25 e chama Salomão de Jedidias, que significa “amado do Senhor”. Davi tem o significado de “amado” e Deus revela em 1Samuel 13.14 que ele é o homem segundo o seu coração e a ele é prometido o reino eterno de Israel em 2Samuel 7.12-13 que vem sobre o seu descendente e que hoje sabemos que o nome dele é Jesus.
A questão teológica é que Adonias, ao conspirar contra Salomão, não apenas desafiava seu irmão, mas rebelava-se contra a vontade explícita de Deus. Sua ambição política era, fundamentalmente, uma recusa em aceitar o propósito divino já revelado e confirmado.

CONCLUSÃO

E assim é com todo aquele que ignora a autoridade e o governo do Senhor sobre sua própria vida e procura erguer um trono para o próprio coração. Existe uma tendência em nossos corações de procurar fazer o que queremos e não aquilo que agrada a Deus. A gente quer muitas vezes se sobressair, prevalecer, assumir o controle da nossa história, se exaltar e se mostrar mais forte, mais poderoso e mais merecedor de honra e glória do que qualquer outro ao nosso redor. Mas isso é apenas o espírito de Adonias nos levando para longe daquilo que Deus quer que sejamos e façamos.
É por isso que Jesus, o rei manso e humilde, veio a este mundo. Ele veio para mostrar que o maior é o que serve.
Mark 10:41–45 NAA
Quando os outros dez discípulos ouviram isso, começaram a ficar indignados com Tiago e João. Mas Jesus, chamando todos para junto de si, disse: — Vocês sabem que os que são considerados governadores dos povos os dominam e que os seus maiorais exercem autoridade sobre eles. Mas entre vocês não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros; e quem quiser ser o primeiro entre vocês, que seja servo de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
Ele veio para revelar que melhor é agradar a Deus do que aos homens, especialmente quando esse homem a ser agradado é o fatídico “si mesmo”.
Jesus é muito superior a Adonias, porque conquistou o reino não por meio da força política, mas por meio da graça e da verdade.
E é importante dizer isso: domingo passado a corrida eleitoral no Brasil começou. Em 2018 e principalmente em 2022, a polarização escalou a níveis satânicos e pecaminosos inclusive em nosso meio. Soube de um filho que votava num candidato à presidência e que, numa discussão agressiva, beligerante e odiosa com o seu próprio pai que votava no candidato oposto, chegaram a uma briga corporal que culminou no assassinato do pai. Sei de muita gente que saiu da igreja porque disseram para ela que cristão só vota num determinado político.
Eu quero deixar claro que isso não tem respaldo nenhum nas Escrituras e que eu não aceitarei debates políticos nem propaganda política nos ambientes da igreja ou nas redes sociais da igreja, especialmente o grupo oficial do WhatsApp. Oriento desde já as secretárias da igreja que apaguem unilateral e sumariamente todo e qualquer conteúdo que seja de cunho político ou eleitoral no grupo.
A igreja é uma embaixada não de uma nação terrena, mas do reino dos céus. Somos representantes de Cristo e do evangelho e o nosso papel como batistas é defender árduamente o princípio da liberdade de consciência e da separação entre igreja e estado. Todo cristão batista da PIBM é livre para votar em quem quiser e responde apenas a Deus pelas escolhas eleitorais que faz, e nenhum líder da igreja ou membro possui autoridade para determinar em quem o outro deve votar.
Temos que ser mais realistas e participar da vida democrática do país com responsabilidade e sabedoria, entendendo qual é o nosso papel como cidadãos e até mesmo precisamos, além de sempre orar pelas autoridades públicas, cobrar que promovam a justiça e garantam os direitos de todos os brasileiros.
Agora, lembre-se sempre: a igreja é a igreja e o estado é o estado e só há um Senhor que pedirá contas de todos esses entes e o nome dele chama-se Jesus Cristo!
Vale ainda deixar bastante claro que Jesus não tem partido político nem candidato. Jesus não tem ideologia e não precisa de nenhum homem público para cumprir os seus propósitos para o nosso país. E nós somos a igreja, o corpo de Cristo — nós temos a mente dele e procuramos pensar como ele pensa e andar como ele andou. A gente vai votar com base em princípios e valores bíblicos, mas por favor e com todo o carinho e amor eu digo isso: cuidado para que a sua esperança não esteja no Estado ou no governo humano e terreno; tenha sempre no seu coração esperança no evangelho de Jesus e no poder do Espírito Santo sobre o povo de Deus (a igreja) para fazer chegar a vida de Deus onde o Estado jamais desejará e poderá chegar!
Isto posto, a gente precisa encerrar esse sermão meditando sobre o rei que não precisou fazer acordo político algum para chegar ao trono. Antes, se negou diante de Pilatos a fazer esse jogo sujo e pecaminoso e foi nu para a cruz, sofreu e morreu pelos nossos pecados, mas ressuscitou ao terceiro dia e agora ele vive, reina, cuida e protege o seu povo e em breve voltará para consumar para sempre o seu reino magnífico e supremo! Aleluia! Jesus Cristo é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores!
E ele precisa se assentar no trono do meu e do seu coração. Quando Jesus não está no trono, andamos como Adonias, adorando o ídolo chamado “si mesmo” e não conseguindo ser quem Deus nos criou para ser. Mas quando Jesus está no trono do nosso coração, então nossas ambições egoístas caem por terra, nossas paixões políticas são derrotadas pela graça de Deus, nosso desejo por poder é convertido por um desejo de servir ao próximo e o reino infalível e eterno avança dentro de nós e começa a alcançar outros corações e tocar essa terra árida e sofrida do nosso país.
Ah, o meu desejo e a minha oração é que você desista do poder terreno e pecaminoso e deseje o reino de Deus que é manifesto pela graça que há em Cristo Jesus. Hoje pode ser o dia da sua conversão. Abandone os pecados e creia em Jesus para receber o perdão de Deus Pai e a vida eterna. Um dia todos estaremos diante do Rei Jesus e prestaremos contas de nossas ações nessa vida. Que você possa estar seguro não no seu desempenho espiritual ou religioso, mas fé que confia no amor de Deus que se revelou e se manifestou na vida, morte e ressurreição de Cristo Jesus.
Desista de ser o rei. Que seja Jesus o rei do seu coração.
Amém. Vamos orar.
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